Dança de corpos, vida bruta, alegria?...


Estava eu (com meus pensamentos) vindo para casa e senti vontade de refletir e falar aqui a respeito de algumas coisas que me deixam um pouco aflita. Na realidade aflição não é a palavra certa, mas quero usá-la mesmo assim.

Nossos pais decidem (ou não) nos ter. Somos bebês. Crianças. Adolescentes. Jovens. Adultos. Idosos.
Bebês nada podem sem os pais. Crianças pouco podem sem os pais. Adolescentes aprendem a "poder" sem os pais. Jovens não precisam dos pais. Adultos conversam com os pais. Idosos não tem mais os pais.

Bebês e crianças muitas vezes agem por instinto, ou porque tudo podem até um tempo. Muitas vezes tem amor, carinho, felicidade... Crescem cercados de paz (ou não) e vivem bem.
Adolescentes se revelam - época da revolta -... Ficar longe dos pais é uma felicidade, pois eles incomodam demais. Então conhecem outros amiguinhos dos quais se identificam: mesma idade, mesmos conceitos, mesma vontade de viver, loucura por liberdade.
Começam os namoros (sem orientação dos pais), a procura por um outro corpo que acolhe, beijos que contenham pitadas de amor - que não sejam o de mãe ou de pai.
E então entram numa fase de sedução, de dança de corpos, de toque, de olhar, de conhecer o outro (ou tentar conhecer) começando pela aparência.
Aquele mais bonito que atrai, o que menos atrai.
Jovens...
Aquele que malha mais, que tem os cabelos mais bonitos, que tem os olhos verdes, o olhar sedutor. Aquela que tem um corpão, que sabe dançar, que conquista a todos.
E então naquela busca dois se conhecem. Se gostam pelo toque físico. Se gostam pelo corpo (se atraem primeiro pelo corpo) e se esquecem da alma.
Transam. Cansam. O corpo já não faz mais sentido, querem algo mais. Mais paixão. Outros corpos. Caem na busca de outros corpos... passam por um, dois, três, dez!
Casam.
Passam por mais 10 corpos diferentes.
Separam.
Casam de novo. Já são quase idosos. E separam.
Conheceram mais de 20 corpos. E não foram capazes de sequer conhecer um pouco do outro.
Assim está o mundo: tocam o corpo mas não tocam a alma!

Por isso é fácil ficar com alguém e separar. Conhecem o que tem interesse, desconhecem o que é mais interessante.
Há corpos mais interessantes do que aquele que temos em casa. E o mistério da alma continua um mistério. Pessoas que aprendem a gostar do corpo, mas não gostam de sentir.
Gostam de estar bem acompanhados, e se esquecem de ser boa companhia.

Há tanto para se aprender sobre alguém (e o aprendizado nunca acaba) que parece que as pessoas simplesmente cansam. É mais fácil conhecer cada milímetro do corpo de outra pessoa do que os sentimentos dela, por exemplo. É difícil compreender o que se passa, reconhecer falhas, ajustar os interesses, dividir momentos, SER / VIVER ao invés de simplesmente ESTAR. No mundo tão fácil (de tudo) como esse que vivemos, é mais fácil testar diversos corpos e achar que conhece do que realmente CONHECER. Porque CONHECER requer habilidades que é para poucos. E então o mundo fica assim: perdido, de corpo em corpo. A alegria é de pouco em pouco. A vida passa de pouco em pouco. E depois de mais velhos, quem sabe, aprendemos que várias corpos não valeram a pena, como uma boa vida compartilhada com outro, que tem um corpo bonito mas que é muito mais que isso - porque sente, porque gosta, porque ama, porque deseja, porque é feliz.

Viva aqueles que percebem que um corpo acaba em pó. Que do pó veio e também irá assim.
Viva aqueles que sentem de verdade, que sentem mais do que tocam.
Viva aqueles que buscam a felicidade não num corpo, mas num "alguém".
Viva aqueles que desejam SER...!


Eu...
300820102031

Comentários

  1. "É mais fácil conhecer cada milímetro do corpo de outra pessoa do que os sentimentos dela..."
    É claro que sua abordagem do pensamento generalizado do "ter" à frente do "ser" está coberta de razão, e atinge em cheio nossos pensamentos. Quem dera fosse importante para as pessoas darem-se a conhecer os sentimentos!
    Lindo texto. Parabéns.
    Um abraço.
    Marcelo Bandeira

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Que tal comentar? Você me deixa feliz!

Postagens mais visitadas deste blog

Oração Puritana

Mais uma carta.

AMOR DA VIDA